SÁBADO, 21 DE OUTUBRO DE 2017

Goiás avança no transplante de órgãos
Data de publicação: 5 de outubro de 2017 - 7:30


Por Maria Antonieta Toledo

Helkes e a irmã Marinalva, ligados pelo amor e pelo compartilhamento de órgão. Fotos Maria Antonieta Toledo

Helkes e a irmã Marinalva, ligados pelo amor e pelo compartilhamento de órgão. Fotos Maria Antonieta Toledo

Quando estava com 31 anos, o administrador Helkes Nascimento de Souza sentiu uma intensa dor de cabeça que durou três dias. O fato levou-o a realizar um checkup para identificar a razão de tamanho mal estar. A surpresa veio com a constatação de que Helkes não tinha nada relacionado diretamente com sua cabeça, mas foi enquadrado como paciente renal crônico. Apenas 22% dos seus rins estavam em funcionamento. “Antes desse diagnóstico, sempre vivi normalmente, sem restrições, dores ou qualquer indicativo de que isso um dia viria a me acometer”, recorda.

Por oito anos, ele conseguiu equilibrar sua vida combinando o tratamento medicamentoso com uma dieta rigorosa que eliminou completamente o uso do sal e da gordura, restrição de potássio, cálcio e carnes. Apesar de não abrir mão de participar de reuniões com familiares e amigos, Helkes passou a levar sua própria comida. “Seguir uma dieta rigorosa foi o que me livrou da hemodiálise. Eu cheguei a acreditar que conseguiria viver plenamente com essa postura. Mas um segundo diagnóstico mudou totalmente a minha vida”, declara.

Esse novo diagnóstico apontou para a necessidade do transplante, visto que seus rins estavam funcionando com apenas 12% da capacidade total. A irmã Marinalva Carla de Souza se candidatou de imediato a doar um de seus rins e ampliou ainda mais seu vínculo com o irmão. Diante da compatibilidade entre ambos, ele recebeu uma nova chance de recomeçar sua vida em plena saúde.

E foi exatamente isso que Helkes fez: agarrou com todas as forças as oportunidades de levar uma vida mais saudável. O administrador, antes alheio ao esporte, descobriu após transplantado que tinha aptidão para a corrida de rua. Se inscreveu em uma prova de 5 quilômetros, sem ter a menor experiência na atividade, e levou quase uma hora para completar o circuito. No ano seguinte, percorreu os mesmos 5 quilômetros em meros 20 minutos, e com um fôlego superior ao da estreia.

O transplante ofereceu a Helkes a oportunidade de se redescobrir, de viver focado na manutenção da sua saúde e naquilo que realmente importa: viver em harmonia com aqueles que ama, como a irmã. Hoje, ele coleciona 7 troféus e 65 medalhas, já correu a São Silvestre e uma meia maratona, onde percorreu 23 quilômetros. “Nunca pensei que seria capaz de tamanho desafio antes do transplante. Hoje, me orgulho de cada passo de superação que dou”, reflete.

À espera de um doador

Daniela aguarda há dez anos na fila pela doação de um rim

Daniela aguarda há dez anos na fila pela doação de um rim

Enquanto Helkes pode sentir a satisfação de viver um recomeço, a jovem Daniela dos Santos Silva, também paciente renal crônica, aguarda há dez anos na fila por um rim compatível. Desde pequena, um refluxo renal não tratado prejudicou o funcionamento dos seus dois rins. Aos 14 anos, ela recebeu seu primeiro rim, doado pelo pai. O processo de rejeição levou a jovem novamente ao centro cirúrgico, dessa vez para receber um rim da mãe, aos 17 anos.

No entanto, seu organismo também rejeitou o segundo órgão e Daniela passou a ocupar um lugar na fila por um órgão compatível. Enquanto se prepara para o momento que ela considera ser “o transplante oficial”, ela passa por sessões de hemodiálise quatro vezes por semana, que lhe tomam quatro horas a cada sessão, e resultam em muito desconforto e dores. “A hemodiálise nos deixa com a sensação de cansaço, a gente se sente fraco, meio debilitado, portanto fica difícil até adotar uma rotina de trabalho”, lamenta.

Essa espera deixa Daniela ora ansiosa, ora esperançosa de que o telefone vai tocar para acioná-la para uma mudança de vida, que vai tirá-la dessa sensação de debilidade para a de plenitude.

Panorama goiano

Assim como Daniela, encontram-se hoje em Goiás 268 pessoas na fila à espera de um rim, outras 249 à espera por córnea e cinco por um coração. Conforme explica o gerente da Central de Transplantes, Fernando Castro, a fila de doadores no Estado é composta apenas por pacientes que necessitam de órgãos que os hospitais locais são habilitados a fazer o transplante. “Hoje, um dos nossos desafios é estimular mais hospitais a se credenciarem para o transplante hepático e de coração”, declara.

Apesar do número desta fila angustiante aparentemente assustar, muito se avançou nos últimos anos. De janeiro a setembro de 2017 já foram realizados quase 900 transplantes em Goiás, número que supera a série histórica de dados coletados ao longo de 18 anos, quando a central goiana foi formalizada.

Este ano já foram efetivadas 49 doações, 139 órgãos captados e 1.016 córneas. Desse total, 76 órgãos foram enviados a outros estados ou porque Goiás não estava habilitado a realizar o transplante ou por não haver receptor compatível. Mas há um caminho árduo de conscientização a ser percorrido. Das mais de 300 notificações de morte encefálica realizadas pela Central, apenas 40 famílias autorizam a doação de órgãos.

Esperança acima de tudo

Raimundo, com apenas 20% de funcionamento do coração, conta com amparo incondicional da família

Raimundo, com apenas 20% de funcionamento do coração, conta com amparo incondicional da família

“É muito triste para nós pensarmos que a nossa vida depende da perda de um ente querido de alguém”, reflete Raimundo Nonato Nunes, 56 anos, na fila por um transplante de coração. “Mas temos que entender que a vida tem um começo e um fim para todos. E esperar que as famílias que se encontram diante desse fim tenham a sabedoria para entender que essa triste constatação pode significar o início de uma nova vida para outras pessoas que, assim como eu, estão com o coração falhando”, completa.

Seu Raimundo deixou a cidade de Imperatriz, no Maranhão, ao saber que em Goiás tinha iniciado a realização de transplantes do coração. Trouxe consigo sua esposa Andreina Pereira Carneiro e a filha pequena Adriele. Juntas, elas cuidam dele em tempo integral.

Apenas 20% de seu coração funciona, o que faz com que sua vida seja um tanto limitada. “Não posso fazer exercícios, até conversar por muito tempo não é recomendado, só durmo sentado, minha alimentação é muito restrita e vivo à base de remédios fortíssimos. Tenho certeza que estou vivo até hoje porque Deus tem uma missão para mim, e porque recebo o amparo da minha família”, reflete.

Toda a sua família vive à espera do telefonema que vai dizer que foi encontrado um coração compatível para lhe dar um novo ritmo de vida. “A cada toque do telefone alimentamos nossa esperança de que seja a ligação que tanto preciso”, explica.

O outro lado da história

Os irmãos que optaram pela doação de órgãos como forma de amenizar a dor da perda

Os irmãos que optaram pela doação de órgãos como forma de amenizar a dor da perda

O tema doação de órgãos tem sido abordado cada dia com mais naturalidade graças ao trabalho de conscientização e de capacitação encabeçado pela Central de Transplantes, junto à sociedade civil e médica. Conforme explica o gerente Fernando Castro, é fundamental que o profissional de saúde receba o treinamento adequado para saber lidar diante de situações que envolvem esse assunto.

“Estamos diante de um assunto um tanto complexo, que envolve a perda de um ente querido. É preciso que todos os procedimentos e protocolos que confirmam a morte encefálica sejam devidamente explicados para que essa família tenha certeza de que tudo foi feito para a preservação da vida, mas não foi possível. E que a morte encefálica representa sim a morte real, sem esperança de uma possível recuperação”, explica.

A postura dos irmãos Enes e Ilda José de Oliveira permitiu que pessoas que aguardavam na fila por um transplante se livrassem dessa espera. Diante da morte do irmão deles, que teve a morte encefálica decretada após uma queda onde bateu a cabeça, eles optaram pela doação dos órgãos, que estavam em perfeitas condições de serem transplantados. “Eu e minha família já tínhamos essa consciência da importância de ser um doador. Até chegamos a brincar com meu irmão que diante da morte dele, se possível, doaríamos tudo. Hoje sinto um orgulho imenso de saber que contribuímos para melhorar a vida de outras pessoas e que parte do meu irmão é fundamental para isso”, alega Enes, com os olhos marejados ao se recordar que no dia da entrevista se completava um ano de falecimento do irmão.

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